Sem sucessor, a venda passa a ser o plano
A sucessão costuma ser tratada como assunto de família, discutido em ocasiões esparsas e adiado sempre que a operação exige atenção. Quando o fundador se aproxima da aposentadoria, porém, ela se torna uma decisão patrimonial com prazo. Este texto examina por que a ausência de sucessor leva tantas empresas ao caminho da venda e o que define a forma como essa venda acontece.
Quando a sucessão organizada não existe
A sucessão organizada ainda é exceção no Brasil. Segundo a PwC, apenas 24% das empresas familiares brasileiras possuem um plano formal de sucessão, e somente 36% chegam à segunda geração. Os motivos se repetem: herdeiros sem interesse ou vocação para assumir, ausência de sócio ou executivo preparado e operações que dependem demais da presença do fundador.
Os três caminhos possíveis
Sem sucessor, restam três caminhos.
- Profissionalizar a gestão. A família permanece como acionista e transfere a gestão a executivos contratados, com governança formal.
- Vender a empresa. O patrimônio construído é convertido em liquidez, total ou parcialmente, com um comprador que dá continuidade ao negócio.
- Encerrar a operação. A alternativa que menos preserva valor, em geral resultado de uma decisão adiada até perder as demais opções.
Para a maior parte das pequenas e médias empresas, a venda é o caminho que melhor preserva o patrimônio acumulado ao longo de décadas. Raramente, no entanto, ela nasce de um único motivo. A sucessão costuma ser o gatilho, acompanhado da necessidade de liquidez para a aposentadoria, do cansaço de conduzir mais um ciclo de crescimento ou da percepção de que o setor está se consolidando.
A motivação define o processo
A combinação de motivações tem efeito direto sobre o processo. Quem vende por liquidez ou cansaço tende a priorizar pagamento à vista e saída rápida, e costuma aceitar um múltiplo menor por isso. Quem vende para crescer busca um sócio com capital e canal e aceita permanecer na operação com metas. O fundador que vende por sucessão precisa definir quanto tempo aceita permanecer na transição, e essa resposta orienta a escolha do comprador e a estrutura do pagamento.
O risco está na origem da decisão. Quando o desejo de vender nasce do cansaço e da falta de sucessor, sem acompanhamento do valor da empresa, ele tende a se converter em decisão apressada, negociada a partir da primeira proposta recebida.
A motivação real do sócio define o perfil de comprador, o ritmo do processo e o papel dele depois do fechamento.