Serra Verde e a geopolítica das terras raras
Em 20 de abril de 2026, a USA Rare Earth anunciou a aquisição de 100% da Serra Verde por aproximadamente US$ 2,8 bilhões, a maior transação da história da indústria de terras raras. O ativo é brasileiro, o mineral é extraído em Goiás, e a operação foi construída ao longo de 16 anos. O comprador é americano. Os ímãs que esse mineral vai gerar serão fabricados em Oklahoma.
Este artigo analisa a transação, o valuation envolvido e o que esse movimento revela sobre o Brasil, seus recursos e suas escolhas.
1. Por que terras raras importam agora
Terras raras não são, como o nome sugere, necessariamente raras na crosta terrestre. O que as torna estratégicas é a concentração da capacidade de extração e, sobretudo, de refino em um único país: a China controla cerca de 90% do processamento global desses minerais. São 17 elementos químicos, entre eles Neodímio, Praseodímio, Disprósio e Térbio, que compõem os ímãs permanentes presentes em praticamente toda a tecnologia do século XXI.
Motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, sistemas de defesa com mísseis guiados, drones militares, radares, semicondutores e eletrônicos de consumo: tudo depende desses minerais. A dependência ocidental tornou-se uma vulnerabilidade estratégica explícita, especialmente após a escalada das tensões geopolíticas entre EUA e China.
A partir de janeiro de 2027, ímãs de origem chinesa serão proibidos em sistemas de armas americanos. Essa data explica a urgência, o prêmio pago e o contrato de 15 anos com o Pentágono.
É nesse contexto que a mina Serra Verde, localizada em Minaçu, no interior de Goiás, emergiu como um dos ativos mais estratégicos do planeta.
2. 16 anos de construção: da pesquisa à produção
O projeto Serra Verde teve início em 2008, com as primeiras explorações geológicas na região de Minaçu. Em março de 2010, foram protocolados os pedidos de exploração junto à ANM, cobrindo 23 áreas entre Goiás e Tocantins. Foram necessários mais de 14 anos de trabalho, entre pesquisa geológica, perfurações, estudos de viabilidade, licenciamento ambiental e construção da infraestrutura, até que a mina Pela Ema entrasse em produção comercial, em 2024.
O tipo de depósito é singular no mundo ocidental: argila iônica, uma formação geológica onde as terras raras estão adsorvidas em partículas de argila, permitindo extração por lixiviação com baixo impacto ambiental e custos operacionais competitivos. A Pela Ema tornou-se a única mina desse tipo em operação fora da Ásia.
Quem financiou e correu os riscos
A Serra Verde não nasceu de capital brasileiro. Desde sua concepção, foi estruturada e financiada por fundos internacionais de private equity. O total investido ao longo de sua existência estima-se em cerca de US$ 1,1 bilhão.
Quatro fundos foram centrais nessa construção. O Denham Capital, americano, atuou como investidor fundador, com foco em energia e mineração. O Energy & Minerals Group (EMG), também dos EUA, aportou US$ 150 milhões em 2023 junto com a Vision Blue. A Vision Blue Resources, britânica e liderada por Sir Mick Davis, ex-CEO da Xstrata, ocupou o papel de chairman do conselho. O Orion Resource Partners, com presença nos EUA e no Reino Unido, é especialista em royalties e streaming de mineração.
A estrutura societária registrada na Receita Federal revela dois sócios: Serra Verde Mining LLC e Serra Verde Mid Mining Holdings LLC, ambas pessoas jurídicas domiciliadas nos EUA. A holding-mãe, SVRE Holdings Ltd., está sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. A empresa operadora brasileira existe como pessoa jurídica nacional, mas sem nenhum controlador brasileiro em qualquer nível da cadeia societária.
3. A maior aquisição da história das terras raras
Em 20 de abril de 2026, a USA Rare Earth, Inc. (Nasdaq: USAR) anunciou a assinatura de um acordo definitivo para a aquisição de 100% da SVRE Holdings Ltd., holding-mãe do grupo Serra Verde.
"Serra Verde's Pela Ema mine in Goiás, Brazil, is a crown jewel — a large-scale operating rare earth mine with integrated processing run by a Brazilian team whose expertise is unmatched." — Barbara Humpton, CEO, USA Rare Earth · Documento arquivado na SEC (DEFA14A), abril de 2026
Estrutura do pagamento
A transação foi estruturada em dois componentes. O pagamento em dinheiro corresponde a US$ 300 milhões em caixa, distribuídos diretamente aos acionistas da Serra Verde. O restante, equivalente a US$ 2,53 bilhões, foi pago em ações da USAR, totalizando 126,849 milhões de novas ações ao preço de US$ 19,95, apurado em 17 de abril de 2026. O valor implícito total da transação é de aproximadamente US$ 2,8 bilhões, tornando-a o maior deal da história da indústria de terras raras. Com isso, os ex-acionistas da Serra Verde passam a deter cerca de 37% da USAR, tornando-se sócios relevantes da compradora.
É importante notar que os US$ 2,8 bilhões representam o valor implícito na data do anúncio, não o montante em dinheiro efetivamente recebido. A maior parte, cerca de 90%, é paga em ações cujo valor pode oscilar até o fechamento do deal, previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias.
Os advisors financeiros evidenciam a dimensão estratégica do negócio: a USA Rare Earth foi assessorada pela Moelis & Company e pelo Latham & Watkins. A Serra Verde contou com o Goldman Sachs e o White & Case. Quatro dos maiores nomes globais de M&A numa única transação.
4. Do minério ao ímã: cinco etapas, três continentes
A lógica industrial da USA Rare Earth é construir a única cadeia totalmente integrada de terras raras fora do controle asiático, do minério bruto ao ímã permanente. A Serra Verde é a peça fundacional dessa arquitetura, mas apenas a primeira de cinco etapas distintas, cada uma com tecnologia, localização e papel específicos.
Etapa 1 — Extração · Pela Ema, Minaçu (Goiás, Brasil) É a fundação de toda a cadeia. Opera com depósito de argila iônica e extração por lixiviação de baixo impacto ambiental. É a única mina desse tipo em operação no mundo ocidental, com capacidade nominal de 6.400 toneladas métricas de TREO por ano. Fornece simultaneamente os quatro elementos magnéticos críticos: Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr), Disprósio (Dy) e Térbio (Tb), com recurso geológico projetado para mais de duas décadas de produção. Sem ela, não existe cadeia. Em operação desde 2024.
Etapa 2 — Separação e Processamento · Hydromet Lab, Wheat Ridge (Colorado, EUA) Recebe o concentrado bruto da mina e aplica processos hidrometalúrgicos proprietários para separar cada elemento individualmente. É a etapa historicamente dominada pela China, que controla cerca de 90% da capacidade global de separação. Sem ela, o concentrado brasileiro não tem utilidade industrial direta. Entrando em operação em 2026.
Etapa 3 — Processamento de Pesadas · Carester / LCM Europe, Lacq (sul da França) Especializada em Disprósio e Térbio, os elementos mais escassos e mais caros de toda a cadeia, críticos para ímãs de alta performance em defesa e veículos elétricos. O governo francês comprometeu créditos de até 45% dos equipamentos elegíveis, demonstrando que a política industrial europeia também está ativamente na corrida pelos minerais críticos. Comissionamento previsto para o final de 2026.
Etapa 4 — Metalização e Ligas · Less Common Metals (LCM), Cheshire (Reino Unido) Uma das poucas empresas no mundo com décadas de expertise em metalização de terras raras fora da China. Fundada em 1992 e adquirida pela USA Rare Earth em novembro de 2025 por cerca de US$ 100 milhões. Converte os óxidos processados em metais e ligas de alta pureza, a forma física necessária para fabricar ímãs. Também processa material reciclado. Em operação desde novembro de 2025.
Etapa 5 — Fabricação de Ímãs · Innovation Lab, Stillwater (Oklahoma, EUA) Destino final de toda a cadeia. O mineral extraído em Goiás se transforma aqui no produto de maior valor agregado. Os ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB) são componentes essenciais de F-35, drones, mísseis guiados, veículos elétricos, turbinas eólicas e robótica industrial. Capacidade plena projetada de 5.000 toneladas anuais em quatro linhas de produção, prevista para 2027. A Fase 1a foi comissionada em abril de 2026.
Etapa Futura — Segunda Mina · Round Top Mountain, Sierra Blanca (Texas, EUA) Será a mina americana que reduzirá progressivamente a dependência do Brasil como única fonte de extração. O projeto se beneficia diretamente da expertise técnica da equipe brasileira da Serra Verde: a USA Rare Earth declarou que esse know-how acelerará o desenvolvimento do Round Top. Quando entrar em operação, o papel estratégico da Serra Verde na cadeia diminuirá. Previsão de produção: 2028.
5. Os múltiplos, os riscos e o potencial de valorização
Os dois cenários de EBITDA para 2027
A USA Rare Earth projetou dois cenários financeiros para a Serra Verde, com implicações diretas sobre o valuation da companhia combinada. No cenário base, 100% das vendas são realizadas como óxidos separados, a aproximadamente US$ 190/kg de cesta TREO, gerando EBITDA anualizado entre US$ 550 e 650 milhões até o final de 2027. No cenário conservador, a operação entrega carbonato misto de terras raras ao abrigo do contrato de offtake com a SPE governamental, com EBITDA anualizado entre US$ 300 e 400 milhões no mesmo período. A meta combinada para 2030, com a cadeia mine-to-magnet plenamente operacional e cerca de 80% de conversão em fluxo de caixa livre, aponta para US$ 1,8 bilhão anualizado.
Os riscos embutidos nas projeções
R01 — Execução operacional A Serra Verde ainda está em rampa. Atingir 6.400 t TREO/ano requer estabilidade operacional que não está garantida. Histórico de mineração de argila iônica fora da Ásia é inexistente antes da Pela Ema.
R02 — Preço de commodities As projeções assumem aproximadamente US$ 190/kg de cesta TREO. O mercado de terras raras é historicamente volátil e fortemente influenciado pela política de exportação chinesa, que pode ajustar cotas ou preços a qualquer momento.
R03 — Risco regulatório A transação está sujeita a aprovações no Brasil (CADE) e nos EUA (CFIUS). O fechamento está previsto para o 3T26, mas pode ser impactado por revisões em qualquer das jurisdições.
R04 — Execução da cadeia As plantas do Colorado, França e Oklahoma estão em diferentes estágios de comissionamento. A planta de Stillwater já acumula cerca de três anos de atraso em relação ao cronograma original.
R05 — Concentração de cliente 100% da produção está comprometida com uma SPE capitalizada pelo governo americano, criando dependência de um único comprador e da continuidade da política industrial dos EUA.
Os múltiplos de mercado e o potencial de valorização
Para contextualizar o valuation da operação combinada, é útil observar os comparáveis do setor. A Lynas Rare Earths (ASX: LYC), maior produtora fora da China, negocia entre 50x e 85x EV/EBITDA, com market cap de aproximadamente US$ 10,8 bilhões, reflexo direto do prêmio estratégico atribuído à sua posição. A MP Materials (NYSE: MP), ainda em rampa de produção, registrou EBITDA negativo em 2025 com market cap de cerca de US$ 12,4 bilhões, sendo avaliada a 24,5x P/Vendas forward, sustentada pelo prêmio de segurança nacional. A mediana do setor de mineração, calculada sobre 624 empresas de metais e mineração, situa-se em torno de 14,6x EV/EBITDA.
A USA Rare Earth (USAR), no momento do anúncio, negociava a um EV/EBITDA forward 2030 de apenas 2,5x, contra a média setorial de 8,5x e market cap de aproximadamente US$ 5,3 bilhões. Essa diferença implica um potencial de rerating significativo caso a empresa execute seu plano operacional.
Com EBITDA projetado de US$ 1,8 bilhão e múltiplo setorial de 8,5x, o valor implícito da operação combinada em 2030 seria de aproximadamente US$ 15 bilhões. A distância entre esse número e os US$ 5,3 bilhões do anúncio mede exatamente o risco de execução que o mercado ainda precifica.
O pagamento majoritariamente em ações (90% do total) não é coincidência. A USA Rare Earth preserva liquidez para financiar a expansão operacional, enquanto os ex-acionistas da Serra Verde, que passam a deter cerca de 37% da USAR, ficam diretamente expostos ao upside futuro do ativo que construíram.
6. O Brasil nessa equação: o padrão que se repete
É necessário começar essa reflexão com uma premissa clara: investimento estrangeiro é essencial para o desenvolvimento do Brasil. Não há razão para criticar os fundos internacionais que identificaram uma oportunidade, correram riscos reais ao longo de 16 anos, investiram aproximadamente um bilhão de dólares e geraram um ativo de relevância global. Esse é o capitalismo funcionando.
A questão não é se a mina deveria ou não ter sido vendida. A questão é mais profunda: por que o Brasil não criou as condições para que esse ativo fosse identificado, financiado, desenvolvido e controlado por capital e estratégia nacionais?
O dado que contextualiza tudo
Há trinta anos, o PIB do Brasil e da China eram comparáveis. Hoje, a economia chinesa é quase dez vezes maior que a brasileira. Esse abismo não se explica por sorte, por recursos naturais ou por vantagens geográficas. A China não tem os recursos naturais do Brasil. Ele se explica, em grande medida, por política industrial deliberada e de longo prazo.
A China identificou as terras raras como ativo estratégico décadas antes de qualquer outro país e construiu sistematicamente o domínio de toda a cadeia, da extração ao produto final. Os EUA, ao perceberem tarde demais essa dependência, mobilizaram bilhões em capital público e privado para construir uma cadeia alternativa e encontraram no solo brasileiro a peça que faltava.
O padrão do café em escala geopolítica
A Serra Verde não é um caso isolado. É o padrão brasileiro de relacionamento com seus próprios recursos. O Brasil exporta grãos de soja e importa proteína processada. Exporta minério de ferro e importa aço. Exporta petróleo bruto e importa derivados. E agora exporta o minério de terras raras, enquanto os ímãs permanentes que habilitam toda a tecnologia do século XXI serão fabricados em Oklahoma, Cheshire e Lacq.
O Brasil tem o grão. O mundo tem a xícara. A margem fica onde está o conhecimento, não onde está o recurso.
O que o Brasil pode aprender
O Brasil não está condenado a repetir esse padrão. Tem exemplos históricos de política industrial bem-sucedida: a Embraer, criada a partir de uma decisão estratégica de Estado. A Embrapa, que revolucionou o cerrado e transformou o Brasil no maior produtor de alimentos tropicais do mundo. A CBMM, em Araxá, com posição estratégica relevante na cadeia global de nióbio. A Vale, que partiu de um projeto estatal e tornou-se uma das maiores mineradoras do mundo.
Todos esses casos têm em comum elementos ausentes no caso das terras raras: visão estratégica de longo prazo, investimento público deliberado em P&D, formação de capital humano especializado e paciência institucional para esperar a maturação de projetos que levam décadas para gerar retorno.
O mineral está no solo brasileiro. A tecnologia ficará nos EUA, no Reino Unido e na França. Para ir além dos impostos e dos empregos gerados na extração, o Brasil precisa de estratégia, tecnologia, capital de longo prazo e vontade política de tratar seus recursos como ativos estratégicos, não apenas como commodities exportáveis.
Referências Bibliográficas
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- USA RARE EARTH, Inc. Investor Presentation — Serra Verde Acquisition. Anexo 99-2, Form DEFA14A. SEC, 20 abr. 2026. Disponível em: sec.gov/Archives/edgar/data/0001970622/000121390026045342
- BLOOMBERG. USA Rare Earth CEO Says US is in 'Early Innings' of Independence. Bloomberg Deals, 22 abr. 2026.
- CARLSEN, Courtney. USA Rare Earth Just Made a $2.8 Billion Strategic Acquisition. The Motley Fool, 27 abr. 2026.
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- PITCHBOOK. Serra Verde — Company Profile and Funding History. 2026.
- RARE EARTH EXCHANGES. Rare Earth & Magnet Industry Updates, Jan 5-10, 2026. rareearthexchanges.com
Este artigo tem finalidade informativa e analítica. Os dados financeiros referem-se a informações públicas disponíveis até abril de 2026. Valores aproximados. A transação está sujeita a aprovações regulatórias.
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